Um estudo conjunto do INSEAD e da London Business School publicado em maio de 2025 documenta a transição: a valorização de habilidades técnicas específicas cai proporcionalmente à sua capacidade de automação, enquanto competências de ordem superior — julgamento ético, visão sistêmica, empatia profunda — tornam-se o diferencial escasso e premium no mercado. Quando um agente de IA pode analisar contratos, otimizar cadeias de suprimentos ou gerir campanhas de marketing com base em dados em tempo real, a execução técnica vira commodity. O que não vira commodity é a capacidade humana de dar sentido, direção e valores a esses processos.
O que acontece com o aprendizado organizacional quando a IA assume o “trabalho de base”?
Até recentemente, o domínio de ferramentas e processos era o pilar da autoridade técnica. O avanço da IA para modelos agentivos permite que fluxos de trabalho que antes exigiam supervisão humana detalhada sejam delegados com alto grau de confiabilidade. O estudo do INSEAD/LBS revela que a automação atinge não apenas tarefas repetitivas, mas também o chamado “conhecimento de domínio” intermediário.
Isso cria um vácuo de competência em níveis juniores e médios, onde o aprendizado tradicional ocorria pela execução prática. Se as máquinas realizam o “trabalho de base”, a formação de lideranças futuras exige novos modelos de aprendizado focados desde o início no julgamento e na supervisão — em vez da simples execução técnica.
O esvaziamento da execução operacional exige que a estratégia de desenvolvimento de pessoas seja redesenhada imediatamente. O foco migra da “mão na massa” para a “visão de sistema”. A pergunta para a diretoria não é “quais tarefas podemos automatizar?”, mas “como utilizaremos o tempo liberado pela automação para fortalecer o julgamento estratégico dos nossos líderes?”
— Templo
Por que empatia e julgamento ético se tornam os novos diferenciais competitivos na era dos agentes?
Com a execução técnica sob responsabilidade da IA, habilidades de ordem superior ganham protagonismo. O discernimento ético, a capacidade de navegar em ambiguidades e a inteligência emocional profunda tornam-se os novos diferenciais. Em ambientes saturados de decisões orientadas por dados, o papel humano é o de “validador de sentido”: a IA oferece a resposta mais provável ou eficiente, mas apenas o humano pode avaliar se essa resposta está alinhada aos valores da marca, à cultura organizacional e ao impacto social de longo prazo.
A empatia, muitas vezes tratada como habilidade secundária, assume posição central na gestão de mudanças e resolução de conflitos complexos. Em um ecossistema onde humanos e agentes colaboram, a coesão das equipes depende da capacidade do líder em gerar segurança psicológica e propósito.
O que é “engenharia de contexto” e por que se tornou a competência técnica mais valorizada?
O estudo do INSEAD aponta que a engenharia de contexto — a habilidade de fornecer a direção correta e o enquadramento estratégico para a IA — é a competência técnica mais valorizada em 2025-2026. Não se trata de saber programar, mas de saber definir com precisão o problema, o escopo e as restrições éticas que devem guiar o trabalho dos agentes.
A liderança deixa de ser sobre ter todas as respostas e passa a ser sobre fazer as perguntas certas e definir as restrições adequadas. A orquestração exige compreensão profunda de governança e riscos — garantindo que a autonomia dos agentes não comprometa a segurança ou a integridade da organização.
FAQ
O que são “higher order skills” e por que estão valorizando no mercado?
Higher order skills são competências cognitivas e interpessoais de alta complexidade: pensamento crítico, julgamento ético, visão sistêmica, criatividade, empatia profunda e capacidade de operar em condições de alta ambiguidade. Estão valorizando porque são as únicas competências que a IA ainda não consegue replicar com confiabilidade — e são justamente as que definem se o trabalho de um agente gera valor real ou apenas volume.
Como as empresas devem redesenhar o desenvolvimento de talentos para a era dos agentes?
O redesenho começa pela revisão dos programas de desenvolvimento que assumem que o aprendizado acontece pela execução repetitiva de tarefas — que agora são delegadas a agentes. O foco precisa migrar para: desenvolvimento de julgamento em cenários complexos (via estudos de caso, mentorias e projetos reais de alta ambiguidade), capacitação em engenharia de contexto e governança de IA, e desenvolvimento intencional de habilidades interpessoais que a automação torna mais escassas.
A IA torna a liderança mais fácil ou mais difícil?
Mais exigente. Se os dados e a lógica estão na máquina, sobra para o humano o que é mais difícil: julgamento em condições de incerteza total e conexão humana autêntica. Lideranças que se escondem atrás de dashboards de IA perdem a autoridade e a capacidade de inspirar. A tecnologia equaliza a capacidade técnica entre concorrentes — o único diferencial que sobra é a qualidade das pessoas que orquestram essa tecnologia.
Como equilibrar o desenvolvimento de higher order skills com a pressão por eficiência operacional imediata?
O tempo liberado pela automação de tarefas operacionais deve ser explicitamente reinvestido no desenvolvimento dessas competências — não apenas absorvido por mais volume de trabalho. Isso requer uma decisão intencional de liderança: criar espaços protegidos para mentoria, reflexão estratégica e desenvolvimento de julgamento, e medir o sucesso desses investimentos por resultados de longo prazo, não apenas por eficiência de curto prazo.
O que é “crise de agência” e como ela afeta profissionais diante da IA?
Crise de agência é o sentimento de que o profissional perdeu o controle sobre o resultado final do seu esforço — quando a IA generativa assume tarefas que antes eram o núcleo da identidade profissional. É diferente da automação mecânica anterior, que substituía tarefas físicas e repetitivas: a IA generativa atinge o trabalho intelectual e criativo, gerando uma crise de relevância mais profunda. A resposta estratégica é o reposicionamento deliberado do papel humano para as competências de ordem superior que a IA não substitui.
O Radar Templo acompanha semanalmente as principais movimentações da inteligência artificial no ambiente corporativo. Para receber essas análises diretamente no seu e-mail, assine a nossa newsletter.



