Os seis planos de governo registrados para a eleição presidencial de 2026 tratam de inteligência artificial, com desenhos distintos. Ronaldo Caiado reúne 22 promessas tecnológicas, Augusto Cury 18, Lula 16, Renan Santos 15, Romeu Zema 14 e Flávio Bolsonaro 13. A divergência central não é adotar ou não adotar a tecnologia. É o papel atribuído ao Estado.
Os números vêm do relatório Quem tem um plano para o futuro digital do Brasil?, do labiia_lab, Laboratório Interdisciplinar de Inteligência Artificial para Métodos, Democracia e Sociedade, publicado em 12 de setembro de 2026 com dados fechados em 2 de setembro. O levantamento analisou 592 páginas e 168.906 palavras dos seis programas registrados na Justiça Eleitoral e codificou 98 promessas. O próprio relatório declara duas limitações: a codificação foi única, sem dupla checagem independente, e 29 páginas sem texto extraível ficaram fora das contagens. Os números medem o que está escrito, não o que será executado.
Para quem decide investimento em tecnologia dentro de uma empresa, a leitura desses documentos responde a uma pergunta prática. O ambiente regulatório e fiscal dos próximos quatro anos define o custo de computação, o risco jurídico de decisões automatizadas e a exigência de comprovação de conformidade. Este artigo descreve o que cada plano propõe, onde eles convergem e o que muda para o setor privado em cada cenário.
O que os candidatos à presidência propõem sobre inteligência artificial?
Os seis planos convergem no diagnóstico e divergem no instrumento. Todos identificam a matriz elétrica renovável e a base de dados agropecuários como vantagens comparativas do Brasil. A separação aparece na resposta: política industrial com fomento estatal, arcabouço de atração de capital privado, regulação por risco concreto ou contenção da regulação.
O quadro abaixo reúne as medidas do labiia_lab. A coluna de detalhamento é a média de cinco sinais de execução por promessa: instrumento, responsável, prazo, financiamento e meta mensurável. A de completude conta dez itens de cobertura temática.
| Candidato | Promessas | Detalhamento (0–5) | Completude | Menções a IA | Eixo declarado |
|---|---|---|---|---|---|
| Augusto Cury | 18 | 2,39 | 9 de 10 | 56 | IA aplicada a educação e serviços sociais |
| Flávio Bolsonaro | 13 | 2,08 | 6 de 10 | 21 | Serviços públicos digitais e difusão em PMEs |
| Lula | 16 | 2,38 | 8 de 10 | 11 | Soberania digital e política industrial |
| Renan Santos | 15 | 3,00 | 6 de 10 | 11 | Minerais críticos e IA no agronegócio |
| Romeu Zema | 14 | 2,57 | 7 de 10 | 4 | Mercado, produtividade e cautela regulatória |
| Ronaldo Caiado | 22 | 3,05 | 9 de 10 | 34 | Missões tecnológicas com indicadores públicos |
Nenhum dos seis marca os dez itens de cobertura. Volume de promessas, detalhamento e amplitude temática apontam lideranças diferentes, o que desaconselha leitura de ranking único.
O que o plano de Augusto Cury propõe sobre IA?
O programa de Augusto Cury é o que mais repete a expressão inteligência artificial, com 56 ocorrências, e o que mais menciona educação, com 108. A tecnologia aparece como instrumento para problemas sociais: evasão no ensino, desemprego, fraude, incêndios e filas no SUS.
Entre as propostas identificadas estão política e marco legal nacionais de IA, modernização tecnológica de dez mil indústrias com robótica e internet das coisas, criação de mestrados, doutorados e laboratórios de IA aplicada, e a plataforma Tele Saúde Brasil com triagem automatizada e objetivo de atendimento remoto em menos de trinta minutos.
O detalhamento médio é de 2,39 em cinco. O relatório registra que a arquitetura institucional fica atrás da ambição: metas numéricas aparecem, mas órgãos responsáveis, sequência de implantação e custos nem sempre. Reconhecimento facial, policiamento preditivo e triagem automatizada recebem mais espaço que os limites de uso, a revisão humana e os canais de contestação.
O que o plano de Flávio Bolsonaro propõe sobre IA?
O programa de Flávio Bolsonaro organiza a tecnologia em torno do atendimento ao cidadão. O núcleo é o Brasil sem Fila, que reúne digitalização de serviços federais, identidade digital única, prontuário interoperável ligado ao CPF e ao Gov.br, e a assistente automatizada ClarIA para agendas e filas de saúde.
O plano também trata de atração de data centers, minerais críticos e difusão de IA em pequenas e médias empresas, com apoio a GovTechs e compras públicas. É o candidato que mais usa a palavra internet, com 16 ocorrências.
O detalhamento médio é de 2,08 em cinco, o menor do conjunto. A checagem do labiia_lab confirmou que Gov.br, Lei do Governo Digital e Rede Nacional de Dados em Saúde já existem como base institucional, o que reduz a distância de partida. Ficam em aberto o custo da integração, a auditoria da ClarIA e as regras de revisão de decisão automatizada. Ciência e educação somam 18 menções, contra 136 no plano de Cury.
O que o plano de Lula propõe sobre IA?
O programa de Lula trata dados como ativo estratégico e conecta IA a política industrial. É o plano que mais usa a palavra soberania, com 31 ocorrências, contra 28 de Caiado, 22 de Renan, 12 de Flávio, 7 de Cury e 1 de Zema.
As propostas incluem Base de Dados do Brasil, Conselho de Soberania Digital, modelos de linguagem em português apoiados em plataforma nacional de dados, fomento a data centers e nuvem, expansão de fibra e 5G com recursos do Fust, e transparência algorítmica com rastreabilidade de conteúdo gerado por IA. Há também proposta de remuneração a autores e artistas pelo uso de obras no treinamento de modelos.
O desenho se ancora em políticas em curso, como a Nova Indústria Brasil e o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial. A vantagem é institucional. O detalhamento médio fica em 2,38 em cinco, e o relatório aponta que muitas metas permanecem sem número novo para o mandato. É o plano com cobertura de 8 dos 10 itens, sem marcar cronograma nem financiamento próprio.
O que o plano de Renan Santos propõe sobre IA?
O programa de Renan Santos é o mais concentrado do conjunto. Tecnologia aparece em dois motores: minerais críticos, sobretudo terras raras, com 23 menções, e inteligência artificial aplicada ao agronegócio.
Para IA, o plano apresenta 14 medidas em cinco eixos, que incluem capital de risco, retenção e repatriação de talentos técnicos, incentivos a data centers, unificação do acervo de dados agropecuários e o Projeto Abaporu, laboratório nacional de IA com capital privado majoritário. Para minerais, propõe zonas econômicas especiais com 5G e preparação para 6G, licenciamento em até quinze dias, parcerias público-privadas, contratos de compra futura com transferência de tecnologia e fundo de garantia.
O detalhamento médio é de 3,00 em cinco, o segundo maior, com 11 de 15 promessas alcançando ao menos três sinais de execução. A checagem encontrou dois limites. A estimativa de R$ 20 bilhões em dez anos não foi confirmada por fonte oficial. O fundo garantidor depende do PL 2.780/2024, aprovado pelo Senado em 2 de setembro de 2026 e ainda sujeito a sanção e regulamentação. Governança de dados, responsabilização de sistemas e segurança cibernética recebem atenção menor.
O que o plano de Romeu Zema propõe sobre IA?
O programa de Romeu Zema é o que menos menciona inteligência artificial, com quatro ocorrências, e adota a posição regulatória mais explícita do conjunto: evitar uma regulação ampla e antecipada da tecnologia, para não comprometer a segurança jurídica do investimento.
As propostas incluem atração de capital privado para data centers, ampliação da exploração privada de terras raras, digitalização de serviços com prazos fixos de atendimento, prontuário nacional interoperável com autorização do cidadão e orientação de pesquisa e desenvolvimento por demanda de mercado. A parte mais distintiva vincula financiamento de universidades, fundos científicos e bolsas a desempenho e aplicação prática.
O detalhamento médio é de 2,57 em cinco. O relatório observa que a cautela regulatória não vem acompanhada de um modelo alternativo de gestão de risco: faltam regras de auditoria de sistemas, tratamento de decisões automatizadas e critérios de dependência de nuvem estrangeira. É o único plano sem promessa codificada em conectividade, e o único em que ciência e pesquisa é a área com mais promessas.
O que o plano de Ronaldo Caiado propõe sobre IA?
O programa de Ronaldo Caiado reúne o maior número de promessas tecnológicas, 22, e o maior detalhamento médio, 3,05 em cinco. Dezenove dessas 22 promessas, ou 86%, apresentam ao menos três dos cinco sinais de execução. O plano lidera as menções a tecnologia, digital, dados, ciência e conectividade.
O diagnóstico parte de quatro insumos: computação, dados, talento e energia. Entre as propostas estão regulação de IA centrada em risco, dano e não discriminação, regime tributário para data centers com contrapartidas de energia renovável e eficiência hídrica, reserva de capacidade computacional para universidades, autoridade nacional de cibersegurança, estabilização do FNDCT, modernização da Lei do Bem, programa de Indústria 4.0 e IA para pequenas e médias empresas, e histórico clínico interoperável universalizado até 2030.
A diferença não está apenas na extensão. O texto usa missões, indicadores e avaliação independente, e condiciona sistemas de IA a validação, supervisão humana, avaliação de impacto e auditoria. O relatório registra duas ressalvas: a autoridade de cibersegurança exige novo desenho institucional, e os resultados do governo de Goiás, usados como demonstração, não equivalem a evidência de escala nacional.
Em que ponto os seis planos concordam?
A convergência está na infraestrutura. Os seis programas tratam energia limpa e abundante como o ativo que posiciona o Brasil na disputa global por capacidade computacional, e todos preveem atração de data centers.
Os dados oficiais sustentam o diagnóstico. A participação de renováveis na matriz elétrica brasileira foi de 86,8% em 2025, segundo o Balanço Energético Nacional 2026 da Empresa de Pesquisa Energética. A capacidade instalada de data centers no país deve saltar de 826 MW em 2025 para 1.746 MW até o fim de 2026, conforme projeção do Ministério de Minas e Energia, que estima demanda de 9.959 MW em 2030 e 13.321 MW em 2036. O Brasil concentra 48% da capacidade operacional e 71% da capacidade em construção na América Latina, segundo o JLL Latin America Data Center Report de março de 2026.
A pressão sobre a rede já aparece no planejamento. A primeira revisão quadrimestral do PLAN 2026-2030, elaborada por EPE, ONS e CCEE em abril de 2026, incorporou acréscimo de 3.457 MW médios de carga de data centers até 2030. Os pedidos de conexão à rede básica somam mais de 13,4 GW até 2038, volume superior ao de setores como indústria e mineração.
A divergência aparece nas contrapartidas. Lula e Caiado condicionam o incentivo a salvaguardas ambientais, eficiência hídrica e reserva de capacidade para pesquisa nacional. Zema defende desburocratização e redução tributária sem condicionantes amplas.
Qual é o principal ponto de divergência entre as propostas de IA?
A divergência principal é o modelo de regulação. Os seis planos se distribuem em três posições distintas sobre quando e como o Estado deve intervir.
A primeira é a regulação preventiva, com governança pública, transparência algorítmica e proteção de direitos autorais. Aparece no plano de Lula e, com formulação própria, no de Cury, que propõe política e marco legal nacionais de IA.
A segunda é a regulação por risco e dano concreto. Caiado defende marco legal centrado no uso e no risco verificável, com validação, supervisão humana e auditoria, sem bloquear a pesquisa. Flávio adota posição próxima ao citar LGPD, consentimento e cibersegurança sem propor arcabouço novo.
A terceira é a contenção regulatória. Zema afirma explicitamente que uma regulação ampla e precoce afasta capital internacional, e defende regular apenas onde surgir dano comprovado. Renan não formula posição regulatória detalhada: seu plano concentra instrumentos de atração de investimento e trata pouco de responsabilização de sistemas.
A segunda divergência é a soberania. Lula e Renan apostam em capacidade nacional própria, com supercomputadores, modelos em português e laboratório de IA com capital privado. Flávio e Zema priorizam parcerias com fornecedores internacionais e adoção rápida por compra.
Em que estágio está a regulação da IA no Brasil hoje?
O Brasil não tem marco legal de inteligência artificial em vigor. O PL 2338/2023, de autoria do senador Rodrigo Pacheco, foi aprovado pelo Senado em 10 de dezembro de 2024 e remetido à Câmara dos Deputados em 17 de março de 2025. Em setembro de 2026, a ficha oficial de tramitação registra a situação aguardando parecer do relator.
A comissão especial da Câmara foi instalada em 20 de maio de 2025, sob presidência da deputada Luisa Canziani e relatoria do deputado Aguinaldo Ribeiro, com prazo regimental de dez sessões do Plenário para o parecer. Dezesseis meses depois, o parecer não foi protocolado. Em 24 de agosto de 2026, o relator declarou que a votação fica para depois do primeiro turno de outubro. A ficha acumula 37 projetos apensados.
O contraste com a agenda fiscal é registrado nos mesmos documentos oficiais. O Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter, o Redata, foi aprovado pela Câmara em fevereiro de 2026, pelo Senado em 1º de setembro e sancionado em 15 de setembro de 2026, com renúncia estimada de R$ 5,2 bilhões em 2026. O regime suspende tributos por cinco anos na compra de componentes e exige contrapartidas: destinar ao menos 10% do processamento ao mercado interno, contratar energia de fontes limpas ou renováveis, apresentar índice de eficiência hídrica igual ou inferior a 0,05 litro de água por kWh e reservar capacidade para instituições nacionais. Segundo o Ministério da Fazenda, cerca de 60% dos dados dos brasileiros estão hoje fora do país.
O incentivo à infraestrutura andou. A regra de uso não andou. Empresas que operam sistemas automatizados no Brasil seguem sob LGPD, códigos setoriais e resoluções de conselhos profissionais, sem norma geral de IA.
O que muda para as empresas conforme o plano que prevalecer?
O que muda é o custo de conformidade e o prazo para comprová-la. Nos três modelos regulatórios em disputa, a exigência de documentar quem responde por cada sistema, de que dados ele parte e como a decisão pode ser revista aparece mais cedo ou mais tarde, mas aparece.
A base atual das empresas brasileiras não sustenta essa comprovação. O estudo do IDC para a ABES, publicado em agosto de 2026 com 107 tomadores de decisão de TI de empresas com mais de cem funcionários, aponta que 95% já usam IA e apenas 48% têm dados bem estruturados e governados. O levantamento da ABIACOM com Brazil Panels e Lideres.ai, feito entre outubro e novembro de 2025 com 200 empresas, registra uso extraoficial de IA em 47,4% delas e ausência de políticas definidas em 59,1%.
O relatório Maturidade da IA Corporativa no Brasil, produzido pelo Templo em 2026 com 382 profissionais, mostra o mesmo intervalo por outro ângulo: score médio de 55,6 em 100, com 61% das organizações abaixo do nível intermediário e a dimensão de automação de fluxos em 35,0, a mais fraca do conjunto.
A conclusão operacional independe do resultado eleitoral. Uma empresa que sabe quais sistemas usa, quem é o responsável por cada um e qual dado alimenta cada decisão atravessa qualquer dos três cenários. Uma empresa que não sabe paga o custo de descobrir sob prazo legal. O ponto de partida é o diagnóstico de maturidade em IA da própria organização, seguido do mapeamento de quais dados internos já estão prontos para alimentar sistemas com o contexto da empresa.
Perguntas frequentes
Quantos candidatos à presidência tratam de IA no plano de governo?
Os seis planos registrados para a eleição de 2026 mencionam inteligência artificial. Todos marcam o item IA e dados na verificação de cobertura do labiia_lab, que exige ao menos uma promessa com dois sinais de execução na área. É o único dos dez itens presente em todos os programas.
Qual candidato apresenta mais propostas sobre inteligência artificial?
Ronaldo Caiado reúne 22 promessas tecnológicas, o maior número entre os seis, com detalhamento médio de 3,05 em cinco sinais. Augusto Cury é quem mais repete a expressão inteligência artificial, com 56 ocorrências. As duas medidas respondem a perguntas diferentes e não produzem o mesmo resultado.
O marco legal da IA já vale no Brasil?
Não. O PL 2338/2023 foi aprovado pelo Senado em dezembro de 2024 e aguarda parecer do relator na Câmara desde março de 2025. Em agosto de 2026, o relator adiou a votação para depois do primeiro turno das eleições. Até a sanção, não há norma geral de IA em vigor.
O que é o Redata e o que ele exige das empresas?
O Redata é o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter, sancionado em 15 de setembro de 2026. Suspende tributos por cinco anos na compra de componentes e exige contrapartidas: 10% do processamento ao mercado interno, energia de fontes limpas, eficiência hídrica de até 0,05 litro por kWh e reserva de capacidade para instituições nacionais.
O resultado da eleição muda o que a empresa precisa fazer agora?
Muda o prazo e a intensidade, não a natureza da tarefa. Os três modelos regulatórios em disputa exigem inventário de sistemas, responsável nomeado por decisão automatizada e rastreabilidade do dado de origem. Empresas que já mantêm esses registros absorvem qualquer cenário com custo marginal.
A disputa sobre inteligência artificial nas eleições de 2026 não separa quem quer e quem não quer a tecnologia. Separa quem atribui ao Estado o papel de induzir e regular e quem lhe atribui o papel de garantir ambiente de investimento. Vamos conversar sobre como isso afeta a sua empresa: o Assessment de IA do Templo mede o estágio atual da organização nas dimensões que qualquer um dos cenários vai cobrar.

